Eu queria muito acreditar que já temos clareza sobre causas específicas do autismo e sobre medicamentos simples que podem impactar decisivamente a fala de pessoas autistas.
Esses foram os dois grandes anúncios, na semana passada, do presidente americano, Donald Trump, numa coletiva de imprensa rocambolesca ao lado do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr. —figura controversa, conhecida por sistemáticos questionamentos sobre a segurança de vacinas.
Deixando de lado a (crucial) discussão sobre a (falta de) evidência científica ligando o uso do paracetamol durante a gravidez ao autismo na criança, ainda seria difícil acreditar em qualquer anúncio, por uma autoridade, que viesse acompanhado das seguintes frases (todas ditas por Trump):
“Eu vou dizer, há partes do mundo que não tomam Tylenol, quero dizer, há um rumor, que não sei se é real, que, em Cuba, não há Tylenol, porque eles não têm dinheiro para Tylenol, e eles praticamente não têm autismo. Me diga sobre essa?”
“A vida também é senso comum. E tem muito senso comum nisso.”
“Eles acham que é melhor [tomar vacinas desagregadas] (…) pode não ter muito impacto, mas pode ter um impacto grande”.
E, por fim, desse diálogo entre Trump e Kennedy Jr.:
“Quando você vai de [1 caso para cada] 20 mil para [1 caso para cada] 10 mil e, então, para [1 caso para cada] 12, você sabe que há algo artificial, eles estão tomando alguma coisa. E, aliás, eu acho que posso dizer que existem alguns grupos de pessoas que não tomam vacinas nem pílulas que não têm nenhum autismo. Não têm nenhum autismo. Isso diz algo a vocês? Isso é uma declaração correta, aliás?”, perguntou Trump aos técnicos a sua volta.
“Existem alguns estudos que sugerem que, sim, com os Amish, por exemplo”, balbuciou Kennedy Jr., atrás do presidente.
“Os Amish, é, praticamente… Eu ouvi nenhum. Bobby quer ser muito cauteloso com o que ele diz, e ele deveria, mas eu não sou tão cauteloso com o que eu digo”, completou o presidente americano.
Como muitas outras pessoas da comunidade autista, me senti massacrada pela irresponsabilidade dessas frases e pelo tom pejorativo com que Trump tratou da “crise do autismo, crise horrível, horrível”.
Em pouco mais de uma hora de entrevista, Trump e Kennedy Jr. misturaram fake news, disputas entre “verdades” científicas que apontam para caminhos opostos e ignorância. Em certo momento, Kennedy Jr. disse que nunca viu um homem de 70 anos batendo a cabeça, fazendo estereotipias, andando na ponta dos pés, que não soubesse falar nem usar o banheiro —assim, concluiu ele, esse autismo que vemos hoje é algo novo.
Me pergunto se alguma vez o secretário de saúde esteve nos hospitais psiquiátricos para onde bebês autistas de níveis altos de suporte eram enviados, até pouco tempo atrás, por recomendação médica, e lá ficavam por toda a vida: longe da família e dos olhos de autoridades, como ele, que deveriam saber mais sobre o que falam.
Não esperamos senso comum de quem faz política pública. Esperamos decisões informadas, baseadas em ciência e que respeitem nossa dignidade e inteligência.
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Fonte: Uol

