Ecoando o slogan “Congresso inimigo do povo”, Lula chamou de “sequestro” as emendas que promovem um escoamento de verbas públicas pelo ladrão do Orçamento federal. Cobrou da plateia autocrítica e reação: “Vocês têm obrigação de não deixar que partido vá para a vala comum da política.”
Tomado pela retórica, Lula vai aos palanques de 2026 com uma pose de político antissistema. Um contrassenso, pois lidera umas das legendas mais sistêmicas do país. Ao término ao atual mandato, somando-se o tempo de Presidência de Lula e Dilma, o PT terá dado as cartas no Planalto por 17 anos e oito meses.
Na prática, Lula ajudou a erguer o sistema que passou a praguejar. Nos seus dois primeiros mandatos, o matrimônio do governo com o centrão evoluiu para o patrimônio. Deu em mensalão, em petrolão e no impeachment de Dilma. Deu também em Bolsonaro, que se elegeu como antissistema e comprou o centrão com o orçamento secreto, uma abjeção da qual Lula não conseguiu se livrar.
Num instante em a candidatura tóxica de Flávio Bolsonaro cresce sobre as cinzas de uma direita pulverizada e a sujeira do Banco Master vaza pelas bordas dos tapetes de Brasília, atacar o bolsonarismo e abominar o sistema tornaram-se desabafos úteis para Lula. Mas nem por isso o desabafo virou solução para um presidente que chega à antessala da eleição com a popularidade ainda no vermelho.
A guerra prevista por Lula aparece nas é pesquisas como uma batalha de rejeições. Prenuncia-se uma disputa apertada. Em vez de escolher o candidato da preferência, o pedaço independente do eleitorado que decidirá a eleição —coisa de 3%— votará na base do “esse não”, rejeitando Lula ou refugando o herdeiro de sangue do prisioneiro da Papudinha.
Confirmando-se o embate entre Lula e Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno, o próximo presidente subirá a rampa do Planalto mais pela debilidade do adversário do que pela pujança de suas ideias. Exatamente como aconteceu em 2018, em favor de Bolsonaro, e 2022, quando Lula prevaleceu pela terceira vez.
Fonte: Uol

