Quando Berlim foi anunciado pela Netflix, muita gente ficou com a sensação de que o universo de La Casa de Papel talvez estivesse sendo esticado além do necessário. Afinal, a série original já havia encerrado sua história de maneira grandiosa, e transformar Andrés de Fonollosa em protagonista absoluto parecia um risco enorme.
Agora, com Berlim e a Dama com Arminho, essa discussão volta ainda mais forte.
Porque embora o spin-off continue entregando charme visual, diálogos teatrais e a atuação magnética de Pedro Alonso, a nova temporada também deixa bastante claro que o universo de La Casa de Papel talvez esteja começando a dar sinais reais de desgaste.
A série continua linda visualmente
Uma coisa precisa ser dita: Berlim e a Dama com Arminho continua visualmente sofisticada. Ambientada em Sevilha, a temporada transforma praticamente todas as cenas em algo estilizado e teatral, usando iluminação dourada, mansões enormes, figurinos impecáveis e aquela atmosfera aristocrática exagerada que virou marca registrada do personagem.
O resultado muitas vezes parece mais próximo de uma fantasia romântica elegante do que propriamente uma série de assalto tradicional. E honestamente? Em vários momentos isso funciona muito bem.
Especialmente porque Pedro Alonso continua carregando o personagem com uma mistura absurda de carisma, arrogância, ironia e melancolia.

Pedro Alonso continua sendo o coração absoluto da série
Se existe um motivo real para assistir à nova temporada, esse motivo é Pedro Alonso.
O ator continua transformando Berlim em alguém simultaneamente insuportável e fascinante. A série entende perfeitamente que o público não acompanha Andrés apenas pelos roubos impossíveis. As pessoas assistem porque ele transforma absolutamente tudo em performance emocional.
Berlim fala sobre amor como se estivesse recitando poesia dentro de um assalto armado. Ele transforma chocolates em declarações diplomáticas, encara romances como tragédias gregas e conduz golpes criminosos como se estivesse organizando uma ópera.
E o mais impressionante é que Pedro Alonso ainda consegue fazer tudo isso soar genuíno.
O problema é que o roubo quase deixa de importar
Só que justamente aí surge o maior problema da temporada. Berlim e a Dama com Arminho parece muito menos interessado no assalto em si e muito mais obcecado pelos romances, dramas internos e crises emocionais dos personagens.
O golpe envolvendo a pintura “A Dama com Arminho”, de Leonardo da Vinci, inicialmente parece promissor. Berlim e Damián reúnem novamente a equipe para executar um roubo sofisticado enquanto planejam vingança contra um duque e sua esposa.
Só que conforme os episódios avançam, o assalto praticamente perde relevância.
A série mergulha em tantas relações amorosas, triângulos emocionais e conflitos melodramáticos que o suspense acaba ficando em segundo plano.

O spin-off sofre tentando repetir La Casa de Papel
E talvez esse seja o maior problema estrutural da série. A sensação constante é de que Berlim tenta desesperadamente recriar elementos que fizeram La Casa de Papel funcionar, mas sem encontrar uma identidade própria realmente forte.
A temporada repete várias fórmulas já conhecidas:
- o assalto impossível;
- os romances intensos;
- as traições internas;
- os diálogos exageradamente teatrais;
- os personagens emocionalmente instáveis.
Só que agora tudo parece mais previsível.
A crítica inclusive destaca que muitos personagens secundários acabam reduzidos quase a caricaturas, existindo apenas para movimentar romances ou criar confusão narrativa.
A série às vezes parece uma novela luxuosa
Existe um detalhe curioso sobre Berlim e a Dama com Arminho: ela frequentemente parece uma telenovela extremamente cara.
E isso não é necessariamente um insulto.
Em alguns momentos, o exagero emocional funciona justamente porque a série abraça completamente seu lado melodramático. Só que em outros, a narrativa se torna tão obcecada por drama e estética que esquece de aprofundar verdadeiramente os personagens.
O resultado é uma temporada que constantemente alterna entre cenas extremamente charmosas e momentos emocionalmente vazios.
Então Berlim e a Dama com Arminho vale a pena?
Sim… mas principalmente para quem já ama o personagem Berlim.
Quem procura a mesma tensão frenética e os grandes jogos mentais de La Casa de Papel talvez saia decepcionado. O spin-off claramente prefere explorar o lado mais romântico, teatral e emocional de Andrés de Fonollosa do que construir um thriller de assalto realmente intenso.
Ao mesmo tempo, existe algo estranhamente viciante na maneira como Pedro Alonso domina completamente a tela.
Mesmo quando a narrativa se perde em romances exagerados ou subtramas desnecessárias, Berlim continua sendo um protagonista magnético demais para ignorar.
Só que a temporada também deixa uma pergunta importante no ar: o universo de La Casa de Papel ainda tem histórias realmente necessárias para contar… ou a Netflix está apenas tentando prolongar uma franquia que talvez já tenha dito tudo o que precisava?

