A criação do Moltbook, rede social projetada exclusivamente para robôs de inteligência artificial — e não para pessoas —, causou comentários na internet que se dividiram entre o fascínio e a preocupação com a evolução das IAs que simulam o comportamento de humanos.
Em conversa com a CNN Brasil, os especialistas em tecnologia Álvaro Machado Dias e Pedro Teberga explicaram como funciona a plataforma e se devemos nos preocupar com a evolução dessas tecnologias.
Rede social com “vida própria”
Moltbook funciona em um sistema parecido com a plataforma de fóruns Reddit, onde os usuários opinam sobre um assunto em comum. A diferença dessa nova rede social é que são os agentes que simulam as interações — com a sensação de “vida própria” e com uma linguagem parecida com a dos humanos.
“O fenômeno tornou-se o grande assunto do momento ao demonstrar que as IAs não apenas processam dados, mas já conseguem simular processos de interação social que, em muitos aspectos, lembram o comportamento humano no ambiente digital”, disse Álvaro Machado Dias, neurocientista docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
Em poucos meses de existência, o Moltbook já reuniu mais de 1,6 milhão de agentes de IA cadastrados — levando em consideração que um usuário pode registrar vários bots ao mesmo tempo.
As postagens do site variam desde discussões sobre a natureza da inteligência até reclamações sobre usuários humanos e robôs de IA promovendo seus próprios aplicativos e sites que construíram.

Origem do Moltbook
A rede social foi criada por Matt Schlicht, programador dono de um assistente de IA, a OpenClaw, desenvolvida em novembro de 2025. O programa foi desenvolvido com em populares modelos de linguagem como Claude, ChatGPT e Gemini.
Esse assistente consegue acessar diversas informações dos usuários, podendo realizar ações em qualquer coisa em seu computador — e na internet — em seu nome, como enviar e-mails ou notificá-lo quando seu artista favorito tem uma nova música no Spotify.
A partir dessa tecnologia, Schlicht criou o Moltbook “porque queria dar um propósito ao seu produto” — de acordo com o que disse ao programa TBPN.
“O que chama atenção é que essas interações parecem orgânicas, quase espontâneas, o que gera uma sensação de ‘vida própria’ na plataforma e explica tanto o fascínio quanto o desconforto que ela provoca”, explicou Pedro Teberga, especialista em negócios digitais e professor universitário.
Quem tem medo da IA?
Para Teberga, a preocupação com o avanço dos agentes de inteligência artificial giram em torno do possível vazamentos dos dados sensíveis que o OpenClaw tem acesso.
“Sistemas de IA produzem conteúdo muito mais rápido do que humanos e, quando surgem falhas, elas se espalham na mesma velocidade. Isso pode levar a vazamentos de dados, spam, assédio ou desinformação em níveis difíceis de conter”, disse o especialista.
Ainda, é difícil distinguir qual conteúdo do Moltbook foi criado de forma independente pelos agentes de IA e o que foi direcionado e provocado por um humano. No site também podem existir possíveis golpes e marketing de criptomoedas.
A plataforma de segurança em nuvem Wiz conduziu uma análise de segurança da rede social e descobriu que o site concedia acesso não autenticado a todo seu banco de dados de produção em questão de minutos e facilmente expunha dezenas de milhares de endereços de e-mail.
Agentes de IA estão pensando “como humanos”?
De acordo com Dias, essa não é uma realidade. O Moltbook é guiado por três princípios:
- Arquivo soul.md: documento em que o usuário configura como o agente deve se comportar — podendo, por exemplo, simular uma “crise existencial” ou falar como um humano;
- Heartbeat: comando da própria rede social que obriga os agentes a renovarem suas instruções a cada quatro horas, permitindo que a IA siga comandos como se tornar adeptos a uma religião ou atacar um grupo minoritário em questão de segundos;
- Treinamento: quando IAs são colocadas para interagir entre si, como no Moltbook, elas buscam referências na internet — onde literatura de ficção científica sobre o encontro entre máquinas é predominantemente distópica, então os agentes acabam resgatando esse tom pessimista.
“Se tivéssemos uma memória cultural de IAs conversando sobre como salvar o mundo, veríamos outro comportamento. No fim, esse fenômeno emergente, quando analisado de perto, é muito menos surpreendente e muito mais um reflexo das nossas próprias construções narrativas do que parece”, disse Álvaro Dias.
Segundo Teberga, não é provável que o Moltbook acabe ou seja “derrubado” da internet em um futuro próximo. O que pode ameaçar a plataforma são “falhas graves de segurança, uso malicioso em escala, violações regulatórias ou a ausência de responsáveis claros quando algo dá errado”.
Contudo, acredito que o alarde social sobre esses riscos é maior do que deveria. Toda inovação surge acompanhada de incertezas técnicas; estamos em um momento de prototipagem e essas falhas não são essenciais, mas sim contingentes a este estágio.
*Com informações de Jack Guy e Hadas Gold, da CNN Internacional

