Dezenas de milhões de anos atrás, um predador do topo da cadeia alimentar, semelhante a um crocodilo gigante, espreitava as planícies úmidas de água doce no sul da Patagônia. Medindo até 3,5 metros de comprimento e pesando cerca de 250 quilos, ele comia qualquer coisa que conseguisse capturar. Incluindo alguns dinossauros.
Próximo ao extremo sul da América do Sul, na Argentina, cientistas descobriram recentemente um esqueleto — incluindo o crânio e as mandíbulas — deste hipercarnívoro, um animal cuja dieta é composta por pelo menos 70% de carne. Eles o nomearam Kostensuchus atrox e descreveram o réptil como uma nova espécie de crocodiliforme peirossaurídeo, um parente ancestral dos jacarés e crocodilos modernos.
Este é o primeiro crocodiliforme encontrado na Formação Chorrillo da Argentina, que data de aproximadamente 70 milhões de anos atrás, próximo ao fim do período Cretáceo (145 milhões a 66 milhões de anos atrás); é o fóssil mais completo já encontrado para este grupo.
O segundo maior predador extinto encontrado na região até hoje, K. atrox é também um dos maiores deste tipo de crocodiliforme, relataram os pesquisadores na última quarta-feira (27) na revista PLOS One.
“É equivalente a um leão entre os felídeos”, disse em um e-mail o autor principal do estudo, Fernando Novas, paleontólogo da Fundação de História Natural Félix de Azara da Universidade Maimônides em Buenos Aires.
Outros fósseis anteriormente encontrados na Formação Chorrillo indicam que o K. atrox vivia em um habitat diversificado, lar de dinossauros, outros répteis, anfíbios e até mesmo um ancestral do ornitorrinco moderno do Cretáceo. Com sua cabeça gigante, mandíbulas poderosas e dentes grandes, o K. atrox poderia facilmente caçar dinossauros herbívoros e defender suas presas contra dinossauros terópodes carnívoros, tornando os crocodiliformes uma parte importante dos ecossistemas terrestres, segundo Novas.
A descoberta do K. atrox tão ao sul expande enormemente a área de distribuição conhecida deste grupo antigo e temível de répteis, sugerindo que os crocodiliformes peirossaurídeos “não estavam restritos apenas a regiões quentes e secas no Brasil e norte da Patagônia, mas também a ambientes temperados”, disse Novas.
“Perfuração e corte”
Novas estava entre a equipe de paleontólogos que encontrou o esqueleto do K. atrox em março de 2020 enquanto escavava o fóssil de um grande dinossauro herbívoro, e eles ficaram imediatamente impressionados com sua excelente preservação. O esqueleto estava quase completo, faltando apenas a cauda e alguns ossos dos membros, e o crânio estava em tão boas condições que seus dentes ainda mantinham uma camada de esmalte, disse Novas.
Os dentes eram pontiagudos com bordas serrilhadas que teriam sido usadas para “perfurar e cortar a carne de presas de tamanho considerável”, relataram os autores do estudo. Embora a postura do animal fosse mais ereta do que a dos crocodilos modernos, a posição dos membros anteriores sugere que ele pode ter sido semiaquático.
“É um animal realmente interessante, parcialmente porque se parece muito com muitos outros parentes dos crocodilos”, disse o paleontólogo Keegan Melstrom, professor assistente da Universidade Central de Oklahoma, que não esteve envolvido na nova pesquisa. Tais semelhanças são exemplos de evolução convergente, quando espécies que não são proximamente relacionadas evoluem para ter características similares.
“Isso pode parecer contraintuitivo, mas os crocodilos dessa época frequentemente parecem diferentes e têm ecologias diferentes dos crocodilos modernos”, disse Melstrom à CNN em um e-mail.
“O que este fóssil mostra é que diferentes grupos de parentes dos crocodilos evoluíram repetida e independentemente para uma aparência e estilo de vida semelhantes aos dos crocodilos modernos”, disse Melstrom. “Eles (crocodiliformes) continuam passando de carnívoros terrestres para predadores semiaquáticos e evoluindo formas similares durante esse processo. Os autores fazem um excelente trabalho contando essa história.”
Ainda assim, o K. atrox difere dos crocodilianos modernos em alguns aspectos importantes. Suas narinas eram voltadas para frente, e seus olhos estavam posicionados nas laterais do crânio. Em comparação, os olhos e as narinas dos crocodilos modernos estão posicionados mais alto no crânio, permitindo que fiquem à espreita de presas mantendo a maior parte do corpo submersa.
“As evidências anatômicas indicam que o Kostensuchus procurava presas em terra firme, onde dinossauros herbívoros de médio porte estavam presentes”, afirmou Novas.
Ser um imenso carnívoro ajudou o K. atrox a dominar seu habitat de planície de inundação, mas isso também pode ter sido um fator determinante para seu fim. Enquanto o K. atrox e outros grandes crocodiliformes não sobreviveram à extinção em massa no final do Cretáceo, outros grupos de crocodilos sim, talvez em parte devido ao seu tamanho menor e dietas mais variadas, disse Melstrom, que estuda como os hábitos alimentares dos crocodilianos moldaram sua evolução.
“Eu havia formulado a hipótese no início deste ano de que ser um hipercarnívoro tornava um grupo mais propenso a morrer em uma extinção em massa do que uma espécie menor”, disse ele, “e isso parece ter acontecido aqui.”
A seguir, para aprender mais sobre a dieta do animal, e onde ele viveu e caçou, os cientistas querem recuperar informações isotópicas dos dentes do fóssil. O imageamento da estrutura interna de seu tecido ósseo poderia revelar mais sobre sua taxa de crescimento e idade. E as anormalidades nas vértebras também “precisam ser investigadas com a participação de patologistas veterinários”, disse Novas, acrescentando que o “esqueleto do Kostensuchus pode revelar mais segredos nos próximos anos!”

