Os temas cativos de Richard Gadd são muito evidentes. Depois de Bebê Rena e a estreia de Pela Metade, é perceptível a intenção do ator e escritor em discutir os desdobramentos da masculinidade contemporânea. Se na minissérie da Netflix ele desenvolvia seus assuntos na relação tóxica entre um homem e sua stalker, no novo projeto da HBO Gadd busca debates nas trocas entre dois homens que crescem como irmãos, amigos e antagonistas.
Em Pela Metade, Niall recebe a visita de um velho conhecido do passado, Ruben. O reencontro acontece no dia do seu casamento, e não demora para as coisas saírem do controle. É aí que voltamos no tempo e vemos como a relação começou. Ainda adolescente, Niall recebe Ruben em casa depois que este sai do reformatório e não tem para onde ir. Com personalidade forte e violenta, Ruben estreita laços com um Niall frágil e confuso. Tudo pode ser resumido em uma brilhante frase de Niall: “Ruben é a melhor e a pior pessoa do mundo”.
Masculinidade em xeque

Gadd, que interpreta a versão adulta de Ruben, constrói um retrato complexo do personagem, que anda no limite do carisma e da pura vilania. Já Niall, vivido por Jamie Bell na fase adulta, se divide entre fragilidade, inteligência e dependência. Os dois são avatares perfeitos para que o roteiro desenvolva suas temáticas sobre masculinidade. Desta forma, Pela Metade questiona: o que a sociedade espera de um homem e o que ele precisa, de fato, ser?
Enquanto Ruben representa o ideal de força e liberdade, ele também escancara a falta de ordem, direção ou mesmo educação. Já Niall, embora tenha inteligência, controle e um possível futuro promissor, acaba vivendo às margens por não se impor ou decidir ponto algum da própria vida. Neste sentido, Pela Metade representa a epítome do relacionamento tóxico: embora seja positivo em algumas esferas, o preço cobrado é infinitamente maior e mais perigoso.
DNA britânico
Gadd, que assina a criação e roteiro de Pela Metade, aparece pouco de início, mas sua presença tende a aumentar com os próximos episódios. De início, porém, é possível elogiar a força do elenco jovem que é responsável, no fim, por estabelecer os complicados traços da relação entre os dois homens. Com direção honesta de Alexandra Brodski, o projeto carrega no DNA aquela atmosfera que só os programas britânicos possuem. Por isso, esqueça os atalhos e resumos norte-americanos: o que vemos aqui pode doer e ser encontrado em qualquer canto e em qualquer um.
Afinal, em algum ponto já fomos Ruben e Niall. Mas qual deles resolvemos alimentar?

