Aquele que, de modo deliberado, escolhe um fascistão está a evidenciar o seu desprezo pela democracia. Não é a “polarização” — essa camisa de força que amarra os idiotas — que me leva a dizer “não” a qualquer um que defenda anistia para golpistas, as tarifas do Trump e o bem-bom tributário para os ricos. Sempre estarei do outro lado da linha. Até porque as liberdades democráticas e a justiça social não são o polo oposto da extrema direita. Ou são? Aquele que disser que sim estará a sustentar que, nesse caso, só se pode ser um centrista sendo um tanto democrata e um tanto fascista. Um meio democrata está a um passo de ser um fascista inteiro. Democracia não é polo.
Essa conversa burra de que a “polarização” impede que o brasileiro escolha quem ele realmente quer para impedir quem não quer reproduz o sonho permanente, que nasce do ódio à política, de que surja no país, já escrevi aqui, o “J. Pinto Fernandes” do poema “Quadrilha”, de Drummond — aquele que não havia entrado na história.
Parte, ademais, de uma perspectiva pobremente idealista, na suposição de que o eleitor sonha com o “bom, o belo e o justo” e, depois, sem encontrá-lo, corrompe a própria vontade, obrigando-se a votar em “Um” para obstar a ascensão do “Outro” — ou o contrário… Mas esperem: quem impede que surjam essas lideranças? Aí respondem: “O processo político…” Qual? Quem determinou, por exemplo — e não foi o eleitor —, que a direita brasileira se deixasse fagocitar pela extrema direita bolsonariana e desaparecesse?
Toda vez que digo não querer alguma coisa, expresso quereres — e também o contrário. “Ah, mas você não gostaria de ter um governante filósofo?” Olhem, o Platão já tentou essa saída, coitado! E deu muito errado.
Aí diz o inconformadinho com a polarização: “Ah, vou ter de votar naquele cara?” Não tem de fazer nada. O voto é livre. De resto, tal dilema está presente em todos as democracias do mundo. Eu, por exemplo, jamais darei meu voto a quem passa a mão na cabeça de golpista. “E se todos tiverem os seus pecados, Reinaldo?” Todos têm, ora bolas! Ocorre que há aqueles com os quais não aceito conviver e que destroem a democracia. Digo “sim” ao regime de liberdades, não aos pecados que nem são meus — já que não me orgulho nem dos meus. As minhas eventuais qualidades existem apesar deles, não por causa deles.
MAIS PARA CRIANÇA BIRRENTA OU PARA MAX WEBER
Olhem aqui: o sujeito que só aceitasse votar em candidato ou candidata que estivesse absolutamente de acordo com as suas ideias não estaria preparado para viver numa democracia, como não está a criança birrenta no supermercado que abre um berreiro exigindo que os pais comprem um troço qualquer. Crianças, afinal, estão mais para a tirania… Já o eleitor que vota em alguém, a despeito dos defeitos do escolhido, porque está a evitar um mal que considera maior, bem, esse sujeito está mais próximo de Max Weber e da ética da responsabilidade do que da criança que põe a boca no mundo porque sua vontade foi contrariada.
Fonte: Uol

